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Critérios SIRS: o que são, como contar e por que não definem sepse atualmente

Revise temperatura, frequência cardíaca, respiração, PaCO₂ e leucócitos nos critérios clássicos de SIRS e entenda a mudança trazida pelo Sepsis-3.

Atualizado em outubro de 2026Leitura aprofundada

O que significa SIRS?

SIRS é a sigla em inglês para síndrome da resposta inflamatória sistêmica. Os critérios foram criados para reconhecer um padrão de resposta sistêmica que pode ocorrer em infecções, mas também em trauma, queimaduras, pancreatite e outras condições inflamatórias.

Historicamente, a presença de dois ou mais critérios teve grande influência nas definições antigas de sepse. Essa associação levou muitas pessoas a aprenderem “SIRS = sepse”, uma simplificação que hoje precisa ser corrigida.

Quais são os quatro grupos de critérios?

Na definição clássica, conta-se um critério em cada grupo quando pelo menos uma condição é atendida:

  • temperatura acima de 38°C ou abaixo de 36°C;
  • frequência cardíaca acima de 90 por minuto;
  • frequência respiratória acima de 20 por minuto ou PaCO₂ abaixo de 32 mmHg;
  • leucócitos acima de 12.000/mm³, abaixo de 4.000/mm³ ou mais de 10% de formas imaturas.

A pontuação prática vai de zero a quatro. Dois ou mais critérios atendem à definição clássica de SIRS.

Exemplo simples

Temperatura 38,5°C, frequência cardíaca 110/min, frequência respiratória 18/min, PaCO₂ 38 mmHg e leucócitos 9.000/mm³. Há dois critérios: temperatura e frequência cardíaca. Isso atende à definição clássica de SIRS.

O exemplo não significa que a pessoa tem sepse. SIRS é um padrão fisiológico inespecífico.

Por que SIRS não é mais a definição de sepse?

O consenso Sepsis-3 redefiniu sepse como disfunção orgânica ameaçadora à vida causada por resposta desregulada do hospedeiro à infecção. O grupo destacou limitações dos critérios SIRS: eles podem estar presentes em muitas pessoas sem infecção e podem faltar em algumas pessoas com infecção grave.

O objetivo da mudança foi afastar a ideia de que inflamação sistêmica por si só é equivalente a sepse. A avaliação moderna considera infecção suspeita ou confirmada, disfunção orgânica e contexto clínico.

SIRS ainda tem alguma utilidade?

Sim, como linguagem fisiológica e ferramenta de ensino. Contar critérios pode ajudar a reconhecer que há resposta sistêmica e a revisar alterações de sinais vitais e leucograma. Também aparece em estudos, protocolos antigos e documentação histórica.

O problema surge quando a contagem é usada como regra automática para “diagnosticar” ou “excluir” sepse. Um paciente pode ter dois critérios SIRS por exercício intenso, dor ou outra causa não infecciosa. Outro pode ter sepse e não preencher dois critérios em um momento específico.

SIRS, qSOFA e SOFA são a mesma coisa?

Não. SIRS descreve alterações sistêmicas inespecíficas. qSOFA foi proposto como instrumento simples de identificação de pacientes com infecção suspeita e maior risco de desfechos desfavoráveis fora da UTI, mas também não é um teste diagnóstico de sepse. SOFA avalia disfunção em seis sistemas orgânicos.

Essas ferramentas têm objetivos diferentes. Compará-las apenas pelo número de pontos pode gerar interpretações erradas.

PaCO₂ é obrigatório para contar o critério respiratório?

Não. O grupo respiratório é positivo se a frequência respiratória estiver acima de 20/min ou se a PaCO₂ estiver abaixo de 32 mmHg. Quando a PaCO₂ não está disponível, ainda é possível avaliar a frequência respiratória.

E os bastões?

O grupo hematológico também pode ser positivo quando há mais de 10% de formas imaturas. Se essa informação não foi medida, não se deve presumir um valor.

Como conferir o resultado antes de registrar

Revise dados, unidades e coerência

Todo cálculo clínico começa pela qualidade das entradas. Antes de confiar no número final, confira se os dados pertencem ao mesmo momento clínico, se as unidades estão corretas e se não houve troca de campo. Uma calculadora pode executar a operação perfeitamente e ainda assim produzir um resultado inadequado quando recebe dados errados. Fazer uma estimativa mental da ordem de grandeza também ajuda a identificar valores incompatíveis.

Não transforme um índice em conduta automática

Índices, fórmulas e escores resumem parte da informação disponível. Eles não conhecem a história completa, os medicamentos em uso, a tendência dos exames, as intervenções já realizadas nem as particularidades do protocolo local. Por isso, o resultado deve ser documentado com contexto e usado como apoio ao raciocínio, nunca como substituto de avaliação profissional.

Erros comuns ao usar SIRS

  • somar frequência respiratória e PaCO₂ como dois critérios separados;
  • somar leucócitos e bastões como dois critérios separados;
  • considerar dois critérios como diagnóstico de sepse;
  • usar SIRS para excluir infecção grave quando a pontuação é baixa;
  • misturar valores de horários diferentes sem contexto;
  • ignorar que dor, trauma e outras causas também alteram os critérios.

Como documentar com clareza

Se a contagem for usada para estudo ou protocolo específico, registre os componentes: “SIRS 2/4 por temperatura e frequência cardíaca”, por exemplo. Isso é mais informativo do que escrever apenas “SIRS positivo”.

Quando o tema é sepse, a comunicação deve seguir a terminologia e o fluxo institucional atual, sem depender da contagem isolada de SIRS.

Por que ainda vale estudar os critérios?

Entender a evolução das definições ajuda a interpretar prontuários antigos, artigos e protocolos. Também mostra como um instrumento pode ser útil em um período e depois ter seu papel redefinido conforme surgem novos dados. Esse é um aprendizado importante para prática baseada em evidências.

O valor do SIRS na aprendizagem clínica

Mesmo não sendo a definição atual de sepse, SIRS continua sendo um bom exercício para relacionar sinais vitais, ventilação e leucograma a uma resposta sistêmica. Estudar os quatro grupos ajuda a perceber como febre ou hipotermia, taquicardia, alteração respiratória e mudanças hematológicas podem aparecer juntas em diferentes doenças.

O aprendizado fica mais sólido quando a contagem é seguida da pergunta “qual contexto explica essas alterações?”. Essa segunda etapa impede que o estudante transforme um padrão inespecífico em diagnóstico. Comparar SIRS com qSOFA, SOFA e NEWS2 também mostra como instrumentos diferentes são construídos para objetivos diferentes e por que não devem ser usados como equivalentes.

Use a ferramenta relacionada

Faça o cálculo com campos estruturados e use o resultado como apoio à conferência e ao estudo.

Abrir calculadora de critérios SIRS

Perguntas frequentes

Dois critérios SIRS significam sepse?

Não. Eles atendem à definição clássica de SIRS, mas sepse atualmente é definida por infecção associada a disfunção orgânica ameaçadora à vida.

SIRS pode ocorrer sem infecção?

Sim. Trauma, queimaduras, pancreatite e outras condições podem produzir SIRS.

PaCO₂ e frequência respiratória somam dois pontos?

Não. Eles pertencem ao mesmo grupo respiratório, que vale apenas um critério.

SIRS substitui SOFA?

Não. São instrumentos com objetivos e construções diferentes.

Fontes e referências

Aviso: conteúdo estritamente educacional. Não substitui avaliação clínica, protocolo institucional, diagnóstico, prescrição ou decisão de profissional habilitado.

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